[COLUNA OPINIÃO] Desequilíbrio emocional

Estreando a coluna de opinião no newsletter da Central Fluminense, eu, Gabriel Franco, historiador da Loucura e Psiquiatria e louco da cabeça, vou comentar justamente sobre o emocional do clube das Laranjeiras. Isso mesmo, do clube. Esse texto foi escrito de madrugada, antes da demissão do entrenador, fato que forçou uma readaptação do texto. Mas, boa parte da argumentação original segue.

O artigo original foi pensado a partir do compilado de Renan Reis sobre erros técnicos, falta de concentração, apatia do time treinado por Luis Zubeldía, e outros indicativos de como a emoção aparenta estar abalada dentro de campo. Se os ânimos vão mudar, não sabemos, mas imaginamos que a “chegada” de Marcão deva provocar esse “fato novo”. Porém, como convidou o Laranja Tricolor, desejo convocar uma discussão sobre como a antiga comissão técnica, tão enérgica à beira das quatro linhas, entregou um time tão letárgico, sobretudo com a sombra da diretoria tão omissa do Fluminense. Fica uma questão que ainda assusta a torcida, pelo menos a parte mais atenta: o elenco espelha quem treina, ou quem o dirige?

Levando “a campo” um pouco de minha formação, gostaria de dizer que não trago estigmas para tabelar com vocês. Mas sim, uma visão sobre o mental fora de qualquer patologização, termo em voga que indica o atual (e pedante) movimento de taxar qualquer comportamento como sintoma de laudo psiquiátrico. Muito embora o mandatário tricolor, Paulo Angioni, corretamente indique que atendimento psiquiátrico é de suma importância no futebol, sobretudo por viver situações traumáticas em sua carreira, não é essa bola que rolo ao público.

Não interessa se Zubeldía esbraveja por ter Transtorno Opositor Desafiador (TOD), se jogador erra passe devido a diagnóstico de Transtorno de Déficit de Atenção e Hiperatividade (TDAH), que falta atitude de “sujeito homem” dos atletas, ou até se havia complô para derrubar o técnico. Não convém conspirar sem prova ou trazer estereótipo antiquado. Ainda que seja importante dizer que o treinador estrangeiro teve erros “nacionais”, isto é, ideias ultrapassadas como a evidente “panela” de elenco, a discussão que me debruço é sob as decisões ditas racionais, frias, calculistas, exaustivamente elaboradas, que a imprensa tradicional na TV e parte da mídia segmentada na internet prometeram que os técnicos de outros países trariam.

Questiono essa noção, principalmente, a partir da resposta de Zubeldía para a pergunta de Wilson Fort, jornalista da casa, sobre não ter havido senso de urgência no time em jogos que requeriam maior ímpeto emocional, como o último jogo contra o Independiente Rivadavia (ARG), na primeira partida das oitavas de final da Copa Libertadores de 2026. O técnico mais descreveu suas alterações táticas do que de fato respondeu à pergunta do setorista da Central Fluminense, ficou difícil até de fazer um resumo de suas palavras aqui, portanto, recomendo assistir a coletiva na íntegra.

A dúvida, então, permaneceu: se não houve respostas sobre como está o emocional da equipe – a não ser falas prontas de media training nas raríssimas entrevistas pós-jogo –, nós não conseguimos definir com precisão a queda de rendimento do Fluminense. É desde o adiamento do clássico contra o Flamengo? Comissão técnica “perdeu a mão” do elenco? Decisões da diretoria incomodam jogadores? Especulamos na maioria das vezes, e nos agarramos ao pouco de concretude disponível, visto que o clube está gravemente descompromissado em transparecer o que está acontecendo. Bem diferente dos tempos vitoriosos, em que as falas presidenciais eram públicas e notórias, embora prolixas. Até agora, o máximo de explicações que tivemos eram falas hispanófonas de Luis Zubeldia, que durante toda sua passagem se recusou a fazer o básico de um profissional estrangeiro: dialogar na língua nativa e procurar se inserir na cultura local.

Nesse sentido, o desequilíbrio emocional questionado é, literalmente, o descompasso de sinergia entre treinador e seus auxiliares com jogadores e gestores. Cada um esteve em rotação diferente, até atletas estiveram desequilibrados entre si: uns demonstraram mais atitude de protagonismo e concentração, outros se esconderam e ficaram trêmulos com a bola se aproximando do pé. A comissão técnica, quando questionava a arbitragem em campo, poucas vezes foi acompanhada por seus comandados, e nem seus comandantes se manifestaram.

Isso posto, vou propor minha análise da situação: falta gestão profissional para lidar com as emoções no Fluminense. Excelente sermos munidos de um departamento de saúde mental que conta com psicologia, psiquiatria, serviço social e demais profissionais da área. Contudo, devemos ir além. Relembramos da campanha de 2023 mais uma vez, sei que é desgastante, mas foque em uma parte não tão relembrada: a psicóloga Emily Gonçalves foi exaltada por Germán Cano, Jhon Árias (in memoriam), nomes da direção, atletas da base, além de grande repercussão na imprensa. Porém, além do próprio técnico à época ser formado em psicologia (não é nostalgia, ok?) e insistentemente abordar a importância da psique de forma ampla – o próprio título da Libertadores vem com uma orientação de incentivo ao John Kennedy, para além da tática –, a comunicação do tricolor convocou a torcida com heavy metal e samba, nossa administração blindou o elenco durante crises, respaldou a comissão técnica e manteve contato com imprensa. Auge do profissionalismo? Não. Mas dimensiona como a questão das emoções não se resume a sala de atendimento para consternações. Sua gestão é muito mais que isso.

O clube precisa profissionalizar sua comunicação com torcedor e imprensa, e se adaptar ao internacionalismo do futebol atual não só ao trazer treinador estrangeiro, mas desenvolvendo managing,ou ao menos briefing,para orientar como a comissão técnica contratada deve corresponder. Se não houver atualização, atenção especializada à atletas não vai bastar. Como na vida, a saúde mental não se resolve só com receita médica, divã e consulta. É preciso que o ambiente se equipe e adeque para a manutenção constante do equilíbrio de relacionamento entre profissionais. Caso isso não mude, Diniz, Menezes, Gaúcho e Zubeldía virão, e velhos problemas permanecerão: de que vale técnico moderno com diretoria arcaica? Há exemplos na Europa e no Brasil.

No que tange ao Fluminense, é difícil ter esperanças. A demissão do comando técnico anterior foi comunicada ao elenco por uma notificação via WhatsApp antes do treino da manhã de quinta-feira – sem contar que a decisão foi tomada em desacordo entre os três homens fortes do futebol,  o presidente, diretor-geral e diretor de futebol –. Embora a imprensa tenha comunicado que a diretoria tricolor se antecipou para analisar nomes caso Zubeldía deixasse o cargo, não há alternativa definida, e a expectativa desequilibra torcida e, creio, também os jogadores. Marcão, mais uma vez tem a responsabilidade de sustentar um alívio emocional para a arquibancada, o campo e, agora, até para as redes sociais.

Conte-nos, tricolor, o que pensa sobre? Essas são ações de um clube que gere profissionalmente o aspecto anímico do clube?